{"id":240,"date":"2023-05-18T15:16:45","date_gmt":"2023-05-18T15:16:45","guid":{"rendered":"https:\/\/araujopinheiro.com.br\/?p=240"},"modified":"2023-05-18T15:16:46","modified_gmt":"2023-05-18T15:16:46","slug":"o-crime-de-gestao-temeraria-segundo-o-entendimento-do-stj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/araujopinheiro.com.br\/index.php\/2023\/05\/18\/o-crime-de-gestao-temeraria-segundo-o-entendimento-do-stj\/","title":{"rendered":"O crime de gest\u00e3o temer\u00e1ria, segundo o entendimento do STJ"},"content":{"rendered":"\n<p>O crime de gest\u00e3o temer\u00e1ria &#8211; previsto no art. 4\u00ba, par\u00e1grafo \u00fanico, da lei 7.492\/86 &#8211; tem como objeto jur\u00eddico tutelado a credibilidade do sistema financeiro nacional, e \u00e9 caracterizado pelo desprezo das normas de conduta inerentes \u00e0 gest\u00e3o de uma institui\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n\n\n\n<p>O crime de gest\u00e3o temer\u00e1ria est\u00e1 previsto no artigo 4\u00ba, par\u00e1grafo \u00fanico, da Lei n\u00ba. 7.492\/1986, e tem como objeto jur\u00eddico tutelado a credibilidade do sistema financeiro nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Art. 4\u00ba Gerir fraudulentamente institui\u00e7\u00e3o financeira:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pena &#8211; Reclus\u00e3o, de 3 (tr\u00eas) a 12 (doze) anos, e multa.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Par\u00e1grafo \u00fanico. Se a gest\u00e3o \u00e9 temer\u00e1ria:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pena &#8211; Reclus\u00e3o, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo penal pode ser cometido por aquele que det\u00e9m compet\u00eancia institucional para a pr\u00e1tica de atos de gest\u00e3o banc\u00e1ria, onde o desprezo pelas normas de conduta da institui\u00e7\u00e3o financeira tem potencial para causar danos subjetivos \u00e0 coletividade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A concess\u00e3o em s\u00e9rie de dezenas de empr\u00e9stimos aprovados pelos diretores de entidade governamental de fomento, sem a devida observ\u00e2ncia das normas editadas pelo Banco Central do Brasil, e o gerenciamento desses cr\u00e9ditos, sem controle e sem cobran\u00e7a daqueles em atraso, pode, em tese, configurar o crime de gest\u00e3o temer\u00e1ria de institui\u00e7\u00e3o financeira, que n\u00e3o depende de resultado, n\u00e3o havendo como afastar a responsabilidade penal sem a realiza\u00e7\u00e3o da instru\u00e7\u00e3o criminal.<\/p>\n\n\n\n<p>HC 44.866\/GO, relator Ministro Arnaldo Esteves Lima, Quinta Turma, julgado em 3\/11\/05, DJ de 5\/12\/05, p. 346.)&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de delito considerado de m\u00e3o pr\u00f3pria, de conduta pessoal ou de atua\u00e7\u00e3o infung\u00edvel, isto \u00e9, pode ser praticado por aquele que det\u00e9m poder de decis\u00e3o sobre o deferimento uma opera\u00e7\u00e3o financeira, admitindo-se, consequentemente, ex vi do art. 29, do C\u00f3digo Penal, a participa\u00e7\u00e3o de terceiros que contribu\u00edram para a realiza\u00e7\u00e3o do fato t\u00edpico.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 poss\u00edvel, todavia, a participa\u00e7\u00e3o de terceiras pessoas n\u00e3o integrantes do rol taxativo previsto em lei na pr\u00e1tica do delito, desde que se demonstre o nexo de causalidade entre a conduta da terceira pessoa e a realiza\u00e7\u00e3o do fato t\u00edpico. Esse nexo exige a presen\u00e7a do elemento subjetivo, consubstanciado na consci\u00eancia de que sua conduta, mediante ajuste de vontades, voltada para a ocorr\u00eancia do resultado que a lei visa reprimir.<\/p>\n\n\n\n<p>RHC 18.667\/DF, relator Ministro Og Fernandes, Sexta Turma, julgado em 9\/10\/12, DJe de 19\/10\/12.)&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O delito em an\u00e1lise exige que o gestor tenha inten\u00e7\u00e3o de colocar em risco a institui\u00e7\u00e3o financeira (ou assume o risco &#8211; dolo eventual), ou seja, s\u00f3 haver\u00e1 justa causa para a formaliza\u00e7\u00e3o de uma acusa\u00e7\u00e3o criminal quando estiver comprovado o dolo:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A den\u00fancia que emprega os termos imprud\u00eancia e neglig\u00eancia, descrevendo, pois, comportamento culposo, apesar da imputa\u00e7\u00e3o de crime pun\u00edvel apenas a t\u00edtulo de dolo, conduz ao reconhecimento da atipicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>(HC n. 101.570\/RJ, relatora Ministra Maria Thereza de Assis Moura, Sexta Turma, julgado em 21\/9\/10, DJe de 11\/10\/10.)&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, o mero descumprimento de normas internas da institui\u00e7\u00e3o financeira n\u00e3o caracteriza o delito, uma vez que a gest\u00e3o temer\u00e1ria exige ato volunt\u00e1rio t\u00edpico de gest\u00e3o desastrosa:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O descumprimento de normas internas da ag\u00eancia banc\u00e1ria, relativas \u00e0 empr\u00e9stimos e financiamentos, n\u00e3o legitima a acusa\u00e7\u00e3o de gerente pelo delito de gest\u00e3o fraudulenta se os atos n\u00e3o chegaram a compreender o n\u00facleo contido no verbo &#8220;gerir&#8221;, pelo qual se tem real comprometimento da administra\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>(REsp 897.864\/PR, relatora Ministra Maria Thereza de Assis Moura, Sexta Turma, julgado em 4\/11\/10, DJe de 29\/11\/10.)&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a infra\u00e7\u00e3o penal n\u00e3o exige efetiva les\u00e3o, pois o resultado natural\u00edstico n\u00e3o \u00e9 previsto na norma. Trata-se de infra\u00e7\u00e3o conceitualmente conhecida como formal ou de consuma\u00e7\u00e3o antecipada, sendo a les\u00e3o ao sistema financeiro nacional mero exaurimento do crime:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A consuma\u00e7\u00e3o do crime de gest\u00e3o temer\u00e1ria n\u00e3o depende da produ\u00e7\u00e3o de resultado natural\u00edstico, que nem sequer \u00e9 previsto no tipo penal.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>REsp 1.352.043\/SP, Relator Sebasti\u00e3o Reis J\u00fanior Sexta Turma, julgado em 17\/10\/13, DJe de 28\/11\/13<\/p>\n\n\n\n<p>Embora existam diverg\u00eancias sobre o conceito de gest\u00e3o para a caracteriza\u00e7\u00e3o do tipo penal em an\u00e1lise, prevalece o entendimento de que a gest\u00e3o temer\u00e1ria poder\u00e1 estar configurada com apenas um \u00fanico ato t\u00edpico. Trata-se de delito definido como habitual impr\u00f3prio, onde a reitera\u00e7\u00e3o criminosa n\u00e3o configura pluralidade de crimes.<\/p>\n\n\n\n<p>Confira trechos das ementas de dois julgamentos divergentes ocorridos no Superior Tribunal de Justi\u00e7a:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O crime de gest\u00e3o temer\u00e1ria de institui\u00e7\u00e3o financeira caracteriza-se como crime acidentalmente habitual, raz\u00e3o pela qual, embora um \u00fanico ato seja suficiente para a configura\u00e7\u00e3o do crime, a sua reitera\u00e7\u00e3o n\u00e3o configura pluralidade de delitos. Precedentes do STJ e do STF.<\/p>\n\n\n\n<p>HC n. 391.053\/SP, relator Ministro Sebasti\u00e3o Reis J\u00fanior, Sexta Turma, julgado em 30\/5\/19, DJe de 2\/8\/19.)&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Embora exista controv\u00e9rsia, com entendimentos doutrin\u00e1rios e jurisprudenciais em sentido contr\u00e1rio, a tese mais plaus\u00edvel \u00e9 de que o crime do art. 4\u00ba, par\u00e1grafo \u00fanico da Lei n\u00ba 7.492\/1986 (gest\u00e3o temer\u00e1ria) exige para a sua consuma\u00e7\u00e3o a exist\u00eancia de habitualidade, ou seja, de uma sequ\u00eancia de atos, na dire\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o financeira, perpetrados com desmedido arrojo.<\/p>\n\n\n\n<p>A descri\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 ato, isolado no tempo, n\u00e3o legitima den\u00fancia pelo delito de gest\u00e3o temer\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>(HC 97.357\/GO, relatora Ministra Maria Thereza de Assis Moura, Sexta Turma, julgado em 28\/9\/10, DJe de 18\/10\/10.)&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, em regra, por ser um delito que se presuma estar embasado em decis\u00e3o proferida pelo Banco Central do Brasil, s\u00f3 haver\u00e1 justa causa para a persecu\u00e7\u00e3o criminal quando houver o tr\u00e2nsito em julgado da decis\u00e3o punitiva da autoridade administrativa, sendo inaplic\u00e1vel a regra das independ\u00eancias das inst\u00e2ncias administrativa e criminal, pois, na gest\u00e3o temer\u00e1ria, a decis\u00e3o administrativa punitiva vincula a justa causa para a a\u00e7\u00e3o penal.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tendo o \u00f3rg\u00e3o estatal respons\u00e1vel pela fiscaliza\u00e7\u00e3o do Sistema Financeiro Nacional, ap\u00f3s regular e amplo procedimento administrativo, conclu\u00eddo que as pr\u00e1ticas que motivaram a representa\u00e7\u00e3o administrativa e, posteriormente, a investiga\u00e7\u00e3o criminal, n\u00e3o caracterizaram gest\u00e3o temer\u00e1ria, evidente a atipicidade da conduta, a conduzir ao trancamento da A\u00e7\u00e3o Penal por falta de justa causa. Precedentes do STF e do STF (RHC 12.192\/RJ, Rel. Min. HAMILTON CARVALHIDO, DJU 10.03.03 e HC 83.674\/SP, Rel. Min. CARLOS VELLOSO, DJU 16\/4\/04).<\/p>\n\n\n\n<p>(HC 77.228\/RS, relator Ministro Napole\u00e3o Nunes Maia Filho, Quinta Turma, julgado em 13\/11\/07, DJ de 7\/2\/08, p. 343.)&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O crime de gest\u00e3o temer\u00e1ria &#8211; previsto no art. 4\u00ba, par\u00e1grafo \u00fanico, da lei 7.492\/86 &#8211; tem como objeto jur\u00eddico tutelado a credibilidade do sistema financeiro nacional, e \u00e9 caracterizado pelo desprezo das normas de conduta inerentes \u00e0 gest\u00e3o de uma institui\u00e7\u00e3o financeira. 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